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terça-feira, 14 de outubro de 2025

Uma reflexão longa sobre inseguranças que nunca vão embora, e o tempo que nunca podemos recuperar.

  Como todo ser humano "normal" existente nesse planeta eu possuo um par funcional de pernas. E eu nunca gostei delas.

A primeira memória que consigo evocar a respeito disso me leva de volta à um dia de verão. Eu tinha 11 anos, estava na praia junto da minha família — nessa ocasião: pai, mãe, irmão e irmã. E justamente minha irmã, após eu tirar meu short para ficar de biquíni, achou de bom tom proferir a seguinte frase: "credo, que nojo, tão nova e cheia de celulite!". Ah...eu não sabia na hora, mas aquilo ficaria ecoando em mim por muitos, muitos anos. Foi o que me deu o empurrãozinho inicial para desenvolver inúmeros problemas com imagem corporal anos mais tarde. Naquele dia entendi duas coisas, primeiro: que celulite era uma coisa ruim, que era estéticamente indesejável (assim como estrias, pelos, manchas, cicatrizes, rugas, etc) e segundo: eu era nova demais para ter isso. Comecei a me comparar com as crianças da minha classe, querendo saber se mais alguma menina também era assim, mas a maioria era normal.

Imagino que desde que isso aconteceu, eu cresci escondendo minhas pernas e tendo vergonha delas. Comecei a odiá-las em um determinado ponto, e acho que foi bem antes de desenvolver o transtorno alimentar, mas com isso, só se intensificou ainda mais. Imaginava que com pernas magras e finas eu me sentiria mais confiante e bonita para usar o que quisesse, e jamais precisaria esconder elas novamente. Pernas esguias para mim são sinônimo de liberdade e perfeição. Passei muito tempo da juventude vendo fotos no tumblr e pinterest de meninas magras e desejando ser como elas, esperando o dia que seria como elas, tentando desesperadamente ser como elas. Eu consegui, mas não enxergava isso; usei tamanho 12 infantil e preferia calças do que shorts. Não estava satisfeita, e eu sei o motivo: elas ainda encostavam uma na outra.

Há uma série de critérios que pernas devem cumprir para serem perfeitas na minha cabeça metódica, e elas não cumpriam estes. Além de que, eu achava elas grossas demais perto dos joelhos (lembro de uma moça me perguntar se eu fazia academia, porque segundo ela eu tinha esse músculo perto do joelho bem saltado). E claro, ainda tinha a maldita celulite. Os anos passaram, eu passei por recuperações, recaídas, mas ainda acredito em pernas magras, no poder delas. E eu quero, eu anseio por isso até hoje. Talvez eu volte nesse assunto mais para frente.

Outro problema que também surgiu na minha juventude e que me acompanha até os dias atuais é a minha questão com autolesão. Por vezes escolhia fazer na perna apenas por ser fácil de esconder, mas admito que também o fazia por querer descontar tudo que sentia sobre mim, em mim. Não tinha apreço algum pelas minhas pernas nojentas, que cresciam pelos e tinham celulites, então não teria nada de mais em ter cicatrizes aqui e ali. Pernas que nunca viam a luz do sol. Pernas com riscas vermelhas. Pernas com cicatrizes em tamanhos disformes. Anos desse padrão nocivo de riscos profundos&permanentes e de restrição tentando amortecer, a essa altura, não só o que sentia pelas minhas pernas, mas por todo meu eu, por completo. Isso é... cansativo.


Eu busquei compensar. Quando a gente é muito inseguro, tentamos de toda forma suprir o que falta em nós para que ninguém perceba isso, e foi exatamente o que fiz. Me tornei uma garota extremamente vaidosa, e sentia gosto genuíno nisso. Passava horas pintando a unha porque descobri um quê de terapêutico nessa atividade, assim como testar combinações de maquiagens artísticas novas, mesmo que não houvesse nenhum evento para ir, de madrugada, apenas para tirar fotos ou me entreter em frente ao espelho, me habituando e aceitando a conviver com a minha imagem, aos poucos. Adorava também usar perucas, um acessório muito agradável, que me fazia sentir-se bonita e diferente, como Sybil, a personagem com muitas personalidades. Comecei a vestir-me melhor, usar roupas mais ajustadas, e tudo isso me fez se sentir mais confiante, e agora, com rotinas de cuidados com a pele exaustivas e rigorosas, com exfoliação, hidratação, e depilação, eu conseguia mostrar minhas tímidas pernas, e às vezes me esquecia de que tinha celulite. Também usava muitas meia-calças, o que me ajudava a esconder e disfarçar, e usei até mesmo creme hidratante com base de maquiagem, por que a insegurança é um fantasma maldito que nunca vai embora. Mas me habituei a ser uma moça muito vaidosa e gosto de ser assim, pois descobri que de certa maneira é autocuidado, e autocuidado nos faz bem.

Com o tempo, a gente é exposto a várias coisas na vida que geram mais inseguranças. Os namoradinhos que tive, ambos eram viciados em pornografia, e como mencionei anteriormente, eu aprendi desde cedo a me comparar, o que foi reforçado por esses rapazes, que faziam comentários justamente me comparando com as atrizes com corpos exagerados que eles tanto admiram, e eu engolia e ruminava aqueles comentários, pensando como poderia ser como elas, para agradar eles, mas isso era fora de cogitação, porquê nada nesse mundo me faria ser nem mesmo minimamente parecida com alguma delas, então eu tentava pensar em como igualar minha performance sexual à delas, e sabia que no fundo, eu era uma fracassada também nesse aspecto...que merda, hein. 

Hoje, eu namoro um rapaz de uns 30 anos, e moro com ele. Bom, este rapaz sempre foi muito doce comigo, mas ele não me contou sobre o problema que ele tinha com vício em pornografia, e isso trouxe muitos problemas para nós. Eu descobri pesquisas no computador dele, ele me contou uma mentira e eu acreditei. Aconteceu de novo. E de novo. Se repetiu pelo celular. E nas conversas com os amigos e primos dele. No começo deste ano, eu acho, eu descobri coisas bem ruins, e recentemente coisas piores...E aí ele me pediu outra chance, e claro que eu dei. Você que estiver lendo pode pensar o que quiser de mim sobre isso. Eu me abstenho, mas eu toquei neste assunto apenas para contextualizar minha reflexão, já que preciso me certificar que vão conseguir continuar compreendendo o texto, enfim.

Durante esse namoro busquei demonstrar atos de serviço ao meu namorado para que ele se sentisse amado e querido, coisas simples; tentava sempre deixar garrafas de água gelada separadas para ele, pois ele trabalhava na praia, debaixo d'um sol quente, e chegava bem suado. Também tentava deixar a casa razoavelmente em ordem, mesmo que eu nunca tenha sido uma dona de casa exemplar, mas toda limpeza na pequena casa já fazia uma boa diferença, admito isso. E algumas vezes eu até preparava comida, mas isso era raro. Isso é o que posso citar de mais "concreto" que costumava fazer com certa frequência, mas também havia os pequenos atos de carinho e cuidado. Também reforcei minha vaidade, afinal, eu queria ser bela para ele. Não apenas bela, mas suficiente. É o que eu falei acima sobre suprir faltas; eu não queria que faltasse nada para ele neste relacionamento, então eu quis suprir tudo, antes mesmo que faltasse. Aqui vemos o antes, e no parágrafo anterior temos o depois, e a ordem tem propósito, estamos chegando ao presente, o tempo está passando. Voltando — ao texto, não no tempo.

Mesmo que meus problemas psicológicos tenham ficado piores com o tempo, e que minha operacionalidade também tenha decaído, eu nunca desaprendi a me arrumar, por mais feio que seja ver uma suposta dona de casa com a casa suja, mas ocupada demais porque está fazendo as unhas. Então eu tentava ainda sim manter minha aparência íntegra e visualmente agradável e atrativa para meu namorado. Eu me sentia confortável até para usar roupas mais curtas em casa, tentando ficar impecável. Mostrava minhas pernas, das quais tinhas tanta vergonha, e ficava desatenta, à toa, espairecida, e era bom, sempre foi bom existir confortávelmente na presença de outra pessoa, e não viver apreensiva, com medo, tensa, receosa, porquê foi assim que você aprendeu a viver, ou sobreviver, temendo que vejam sua maior insegurança. Então, era muito bom viver momentos onde minhas pernas não eram uma questão, e sim, parte de um todo, mas não um todo ruim, apenas um todo simplório e banal.

Uma das coisas que eu li no celular dele, foi um comentário dele a respeito de celulite. Ele obviamente mentiu para mim e tentou falar que era uma brincadeira, mas eu estou calejada, mas aquilo me atingiu, junto de tudo, por que eu absorvi tudo que li aquele dia. Me lembrou de um dia de verão, no qual fui para a praia junto da minha família. Me comparei com todas aquelas moças com corpos que não pareciam nem um pouco com o meu. Corpos perfeitos. Aquilo quebrou algo em mim de um jeito muito ruim, eu não sei explicar. Antes, eu conseguiria fácilmente manter o hábito vaidoso dos meus rituais de beleza para ir à faculdade, ficar em casa, ou até mesmo o básico da higiene, mas agora, após isso, eu não conseguia de jeito nenhum, não tinha forças. E mesmo que tivesse, para que e porquê? Senti que todos os meus esforços foram jogados no lixo. Eu não sou bonita, meu corpo é feio. Não tenho por que mostrar ele. Fiquei dias sem conseguir tomar banho, semanas, na verdade. Não quero nem falar sobre higiene bucal. Lavar o rosto, trocar de roupa, também era difícil. Comer. Depois comi em excesso. Deixei crescer meus pelos. Me tornei uma aberração, externei como me sentia, deixei que vissem quem eu realmente era sem enfeites ou maquiagens para disfarçar. 

Os dias passaram, viraram semanas, dois meses, eu acho. Minha percepção de tempo é distorcida, talvez por trauma ou pela medicação, não sei dizer, mas posso afirmar que sim, o tempo passa, mesmo que contra a nossa vontade, e ele é cruel com a gente. Eu comecei a pensar em escrever esse texto umas madrugadas atrás, quando, em um desses mini picos de ansiedade, estava pensando em "data de validade", já que em breve farei 25 anos, e que logo vou estar velha demais segundo alguns homens, e nunca deixei de ter celulite, nunca conquistei pernas finas, vivo fracassando nas minhas dietas, tenho inseguranças desde nova, e eu lembrei de uma frase que vi no instagram que era algo como "hoje é o mais jovem que você será a sua vida toda, aproveite!". Penso que nunca aproveitei realmente minha juventude até hoje, mas que gostaria de mudar isso. Já li que 25 ainda é uma boa idade, que posso ser bonita e me sentir bem em roupas que mostram mais o corpo, etc. Não quero mais me sentir presa, e o tempo não tem piedade de nós, ele não volta, ele nos apodrece e nos desfigura, e então, ficaremos ainda mais inseguros sobre nós mesmos.

Eu não sei onde eu queria chegar com este texto, mas é um blog diário, então aqui está uma reflexão sobre inseguranças e tempo perdido. Au revoir

domingo, 7 de setembro de 2025

sobre ser "especial".

Se eu fosse mesmo especial, como você sempre me disse, então por que?

Eu não entendo.

Eu nunca fui especial, nunca fui digna da sua mudança, você nem mesmo enxergava o que fazia como algo errado. Mas eu sempre te ouvi, sempre acreditei em você e na sua mudança, como você me prometeu tantas vezes. Me fiz de cega de propósito. Me anulei. Coisas que sentia, que me machucavam profundamente, e você sabia, mas ainda sim fazia, muito antes de eu cometer qualquer erro. 

E ainda sim, eu escolho ficar

e te dar
mais
uma
chance.

quarta-feira, 20 de agosto de 2025

sem título.

me esfreguei no banho com força e mesmo assim a sujeira não saiu de mim. não era física, era emocional, ah, sim.
chorei e arfei e meu corpo pesava mil e uma toneladas e eu não tinha força suficiente para me manter em pé enquanto a gravidade insistia em me puxar para o chão escorregadio.
o ar não chegava até os meus pulmões dentro do cubículo abafado que era o banheiro, tomado pelo vapor da água fervente, a única temperatura capaz de aquecer meu corpo. a água quente e o sabão freneticamente esfregado contra a minha carne não me deixaram menos suja, apenas mais cansada. a sujeira está em mim, na minha pele, na gordura visceral, nos excessos adiposos. em tudo.

sexta-feira, 8 de agosto de 2025

autocontrole.

4h40 — acordo, lavo o rosto, passo uma máscara de argila verde. bebo 500ml de água.
5h40 — 2½ bananas com creme de avelã. ( eram minúsculas.) + mais 500ml de água.
8h10 — yakult light + um pouco de pipoca.
10h10 — 2 carás sem miolo com peito de peru e maionese + metade de um pão de queijo grande com creme de avelã.
(o pão de queijo estava nojento. não consegui terminar.)
11h40 — um copo de água gelada.

você decide começar uma dieta, ou talvez só "voltar aos trilhos", seja lá o que isso significa. retornar a velhos padrões que nunca morrem de verdade — só hibernam dentro de você. às vezes isso dura dias. às vezes, só horas. difícil prever.

você torce para que funcione dessa vez. anseia.
porque está cansada de se odiar.
cansada de sentir falta de uma versão antiga de si mesma.
ou, pior ainda, de uma versão que talvez nunca tenha existido.

tic-tac. o tempo se arrasta.
segundos, minutos, horas.
quanto tempo vai durar?
“vou ser forte”, você diz para si mesma.
mas será?

meu copo de água ainda está aqui na minha frente, esquentando enquanto escrevo isso.

hoje vou no rodízio.